ALFAYA LIVREIRO
Poesias, contos, crônicas, ensaios, resenhas. Venda de livros.
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EL GIGANTE BRITADOR
 
           
     Quando abri os olhos, estava deitado num banco duro, num lugar que me pareceu ser um vestiário.  Nas paredes ladrilhadas, podiam-se ver vários pôsteres com os retratos de algumas estrelas do mundo do boxe.  Embora não acompanhasse tal esporte, pude reconhecer: Muhammad Ali, Mike Tyson, Maguila, Rocky Marciano e Joe Frazier.  Achavam-se ainda alguns outros, cujas fisionomias não me eram familiares. 
     Dentre esses retratos, chamava a atenção um que era bem maior que os demais, único com legenda, em que se via um homem bem moreno, com mais de dois metros de altura, o tórax absurdamente largo, músculos por todo o corpo.  Abaixo da imagem, os dizeres: El Gigante Britador, campeão dos pesos pesados.  O nome Britador sugeria um brasileiro, mas o El, antes do título El Gigante vinha da língua espanhola. O biótipo dele correspondia ao de um latino-americano, embora vestisse um calção com a bandeira dos Estados Unidos.  El Britador olhava ameaçadoramente para mim, os dois punhos erguidos e cobertos com luvas de boxe, prontos para esmurrar-me.

     Encontro-me nessa situação, ainda muito sonolento, tentando decifrar onde estava e o que fazia ali, quando entram dois sujeitos. Um era rosado e sardento, de curtos cabelos ruivos.  O outro um pouco mais baixo e mulato conduzia um par de luvas de boxe.
          O ruivo me dá uma bronca:
          - Qual é, Oliveira!  Você ainda não trocou de roupa?  A luta começa em poucos minutos.
      Tentei argumentar que meu nome não era Oliveira, mas o ruivo, voltando-se para o mulato, foi dizendo:
      - Chico, me ajude aqui a trocá-lo. Se perdermos a hora, pagaremos multa por cada minuto de atraso.  O Fonseca nos mata se isso acontecer.
       - É pra já, Gouveia. - Respondeu Chico.
       Eu vestia uma camisa polo, calça jeans e sapatos de couro.  Os dois caras me agarraram e me foram tirando a roupa, ao mesmo tempo em que me calçavam meias esporte, um par de tênis e um calção brilhante, em que havia uma bandeira do Brasil. Logo em seguida, Chico enfaixou cada uma das minhas mãos e começou a ajustar em meus punhos as luvas de boxe que trouxera.
     - Um momento, senhores.  Deve haver algum engano.  Eu não me chamo Oliveira.  Meu nome é Juvenal Nunes, trabalho como recepcionista do Grande Mundo Hotel, no Centro do Rio de Janeiro.  Não sou lutador de boxe, esporte a que, inclusive, tenho sérias restrições.
     - O que está havendo, Oliveira? Você bebeu ou ficou pirado?  Se o Fonseca ouve você falar isso... - Protestou Gouveia.
     - Mas afinal, quem é esse Fonseca?
     Mal indaguei, entrou um homem alto, muito branco e gordo.  Embora nunca o tivesse visto antes, percebi logo que estava perante o Fonseca.  Chegou, reclamando também:
     - Mas o que está acontecendo?  Vocês já deviam estar lá fora, aguardando a chamada para subir ao ringue.
     - Houve um imprevisto, Fonseca.  Mas ele já está indo para lá. - Procurou tranquilizar Gouveia.
     - Andem logo com isso.  Não podemos pegar multa contratual.
     Mais alguns segundos, e os meus dois auxiliares vestiram-me um roupão brilhante, em cujas costas se podia ler, em letras graúdas e prateadas: Kid Oliveira, campeão mundial dos pesos pena.  Tentei esclarecer a situação ao Fonseca.
     - Senhor Fonseca, sou Juvenal Nunes, recepcionista do Grande Mundo Hotel, a seu dispor.  Não sei o que está acontecendo.  Nunca lutei boxe.  Não conheço as técnicas, desconheço as regras.
     Fonseca olha pra mim com um sorriso irônico e despacha, implacável:
     - Eu sabia, Oliveira.  Eu sabia que, na hora H, você ia amarelar e inventar alguma.  Acha que sou idiota?  Quando você tomou aquele porre em Las Vegas, eu lhe disse: vamos cancelar as entrevistas, não fala com nenhum jornalista.  Mas não.  Você tinha que se apresentar perante a imprensa internacional, completamente bêbado, e desafiar para um combate o peso pesado mais violento de todos os tempos.  O último adversário dele, foi este aqui - disse, apontando para um dos retratos na parede - o peso pesadíssimo Black Jones. O Jones, o adversário mais difícil que El Gigante Britador enfrentou, entrou em coma, no fim da luta, e hoje sobrevive entubado, ligado a aparelhos. 
       - Senhor Fonseca, eu juro que...
     - Mas pare com esse negócio de me chamar de senhor Fonseca!  Que é isso?  Há cinco anos trabalhamos juntos.  Sei o seguinte: você não podia ter feito uma coisa dessas.  De qualquer forma, dava para tudo ter ficado ali.  Bastava um pedido público de desculpas.  Em lugar disso, dois dias depois, já sóbrio, por orgulho, você confirma tudo que falou e ainda reitera o desafio.  E você tanto insistiu, que consegui arranjar a luta.  Teve de ser fora do circuito oficial.  E precisei negociar muito para que El Britador concordasse em vir para o Brasil e, sobretudo, em pegar leve, em não o matar no ringue.  Tive de pagar as passagens, a hospedagem dele e da comitiva. Ainda, aceitar ceder-lhe 65% do valor da renda total, incluindo os ganhos com os direitos de transmissão e patrocínios diversos.  Mas ele me falou que você prepare o queixo.  Vai dar-lhe um soco só, comedido, apenas para levá-lo a nocaute.  Porém, que se você falasse ou fizesse mais alguma besteira, ele descumpriria o pacto e o destruiria, na frente das câmeras.  Seja como for, agora está tudo arranjado: a Rodo, líder de audiência, comprou os direitos de transmissão exclusiva, tanto pelo rádio quanto pela televisão; todos os ingressos foram vendidos; temos dez multinacionais patrocinando o evento.  Assim, se você vier com essa conversa de que não é o Oliveira, de que não sabe lutar boxe, eu mesmo vou estourar os seus miolos. - Fonseca disse isso, mostrando-me uma arma.
     Com o propósito de acalmar os ânimos, Chico me exibiu a capa de uma revista.  Lá estava eu, com o mesmo calção e o mesmo robe, recebendo o cinturão e a taça pela conquista do campeonato mundial de pesos pena.  Como isso podia ser?
     Os três homens começaram a me empurrar em direção à porta.  Tentei resistir, mas era inútil.  Eles me foram empurrando e, quando a porta se escancarou, Fonseca pediu a ajuda de dois seguranças que estavam ali, de plantão.  Agora eram cinco que me arrastavam.  Não havia como fugir e, de repente, vi que estava em um corredor, de cuja extremidade eu podia ver o ringue. 
     Nesse exato instante, o apresentador chamou o meu nome, isto é, o que diziam ser o meu, Kid Oliveira:
     - E para ocupar o canto esquerdo, com um metro e setenta de altura, 57 quilos, o intrépido desafiante, o atual campeão mundial dos pesos pena, o brasileiro Kid Oliveira!
     Ouvi alguns aplausos e, também, apupos. O grupo atrás de mim me foi empurrando novamente.  Tentei voltar, não houve condição.  Quando dei por mim, estava sentado num banquinho, junto a um corner, sendo massageado, no tronco e nos braços, por Gouveia, que me pareceu mais ruivo e sardento do que nunca.  Nas batatas das pernas, podia sentir os movimentos rápidos dos dedos de Chico.  Puseram-me na boca um aparelho, acho que servia para que não mordesse a língua, e vi que Fonseca providenciara uma guarda formada por vários homens que usavam um traje militar preto.  Por sinal, todos portando cassetetes e revólveres na cintura.  Eles se posicionaram, de braços cruzados, ao redor do ringue, sem qualquer preocupação em disfarçar a presença.  Não atrapalhavam a visão da plateia, pois as arquibancadas do estádio coberto eram constituídas de degraus e, além disso, o ringue ficava a mais de um metro do chão.
     - E para enfrentar o desafiante, ele, que tem dois metros e meio de altura, 130 quilos de pura massa muscular... O invicto, o descomunal, o invencível brasileiro, naturalizado norte-americano, El Gigante Britador, supercampeão dos pesos pesados!
     Quando El Gigante entrou, com aqueles braços enormes erguidos para o teto, os músculos brilhando e saltando sob a luz dos refletores, houve um delírio na plateia como jamais eu testemunhara antes, nem mesmo em decisão de Copa do Mundo.  O Britador era um homem imenso e ainda novo. 
     O Gigante ergueu o braço direito e socou o ar, simultaneamente emitindo um grito selvagem que fez tremer o estádio.  A plateia, em frenesi, pulava, erguia as mãos, imitava o gesto e o grito do Britador, entoando-lhe o nome em coro.  Nas primeiras filas, mocinhas que portavam retratos do ídolo gritavam e choravam copiosamente.  Uma delas chegou a desmaiar, provocando a entrada dos médicos de plantão.
     Os rostos dos locutores da Rodo brilhavam de alegria, mediante a informação dos altos índices de audiência naquele momento.  Recorde total.  Em volta da imagem do superatleta na tela, sucediam-se, num fluxo contínuo, logomarcas e ícones com produtos e serviços de todos os tipos. 
     - Não entendo.  Não deveriam torcer mais por mim?  Afinal, ele é o Tom, e eu sou o Jerry! - Perguntei a Gouveia.
     - Não se iluda, Oliveira. Com o ingresso a mil reais para a arquibancada comum e dez mil para um camarote com meia dúzia de lugares, aqui só tem o pessoal da alta.  Eles vieram para ver de perto o herói deles.  E contam que ele esmagará você.
     - Mas sou brasileiro.
     - E daí?
     - Como assim?  Represento o Brasil, ele representa os EUA! Estamos num estádio brasileiro.
     - Ele também é brasileiro. 
     - Brasileiro?  Com esse título espanholado de El Gigante?
     - Isso foi coisa dos ianques.  Muitos deles ainda pensam que a capital do Brasil é Buenos Aires, que aqui se fala espanhol e que se dança rumba. Se bem que, nesse caso, creio que lhe deram esse nome para fazer do lutador um astro internacional, capaz de cativar também os povos de língua espanhola. Eles fizeram o menino, você sabe disso, todo mundo sabe.  Um olheiro, que estava de férias no Rio, viu o pivete enfrentando sozinho três marmanjos e levando vantagem.  Era franzino, mas tinha uma força e uma habilidade, que se sabe lá de onde vinha.  Derrubou os três grandalhões a socos.  O olheiro sentiu o cheiro da grana.  Foi atrás, seguiu.  Tiraram o moleque das ruas, levaram para os States, trataram, alimentaram, deram-lhe uma instrução básica, muito exercício, muito treinamento, e José Ninguém se transformou em El Gigante Britador, astro dos ringues e do cinema. Quanto ao nome artístico, foi inventado pelos gringos, claro.
      - Pois, eu acho que torcer por essa aberração é falta tanto de espírito nacionalista quanto humanista. Eles transformaram essa criatura num monstro!
     - Deixa de besteira, Oliveira. Os americanos salvaram o garoto, isso sim.  Quanto a essa gente que está aqui hoje, é um pessoal que só se veste de verde e amarelo para torcer pela Seleção nacional de futebol ou para derrubar políticos populares.  Seja como for, mais do que brasileiro, El Gigante é internacional.  Ele pertence ao mundo.  É de todos e de ninguém, ele é um herói global. Sem falar que encarna o sonho de muita gente: forte, bonito, rico, descolado e morando numa mansão em Hollywood.  Depois, Oliveira, seu comportamento para com o Britador foi considerado injusto, antidesportista, invejoso, arrogante e ofensivo. Foi a versão que predominou na grande mídia, contaminando as redes sociais. Diante de tudo isso, como pode esperar que torçam por você?
     Percebi que não adiantava discutir ou tentar entender.  O fato é que eu não tinha saída.  O apresentador prosseguiu:
     - E para conduzir esta luta, o árbitro dos árbitros, o homem que se situa além do bem e do mal, o incorruptível, o impecável, o magistrado magistral: Vivaldino Togado!
     O árbitro da contenda, aplaudido de pé, sobe ao centro do palco. Trajava um terno escuro e, sobre ele, uma capa preta, que recordava as asas de um mocergo e que ia quase até o chão.  Na verdade, o homem se vestia como se fosse um juiz de verdade, e não como um árbitro esportivo.  Tive a impressão de que, ao passar pelo Gigante, Vivaldino piscara para ele. Em seguida, postou-se de pé, solene e triunfante, no centro do ringue, como se fora ele a vedete do espetáculo.  Seu rosto rígido, de cor de cera, surgiu em close em todas as enormes telas que circundavam o estádio, exibindo a dureza do olhar daquele que comandaria a luta.  Quando finalmente diminuíram os aplausos, o árbitro (ou deveria dizer mesmo o juiz, neste caso?) chamou a mim e ao Britador ao centro do estrado.
     Vivaldino Togado examinou superficialmente as luvas do Gigante e, minuciosamente, as minhas.  Nada encontrando de errado, fez um rápido discurso, olhando sempre feio e só para mim, enfatizando que não admitiria golpes abaixo da cintura, mordidas, chutes, cotoveladas ou quaisquer atitudes desleais.  Mencionou outras coisas que não entendi muito bem, pois, embora o árbitro falasse português, tinha sotaque de norte-americano, e havia muito ruído no ambiente.  Seja como for, fiquei ciente de que a peleja estava prevista para o máximo de dez assaltos.
     Chico me perguntou se eu queria que ele fizesse uma aposta para mim.  Foi quando soube que absolutamente ninguém apostara na minha vitória.  Todas as apostas diziam respeito ao round em que o Gigante me abateria. Os que levavam um pouco mais de fé em minha performance diziam que eu aguentaria até o quinto round, no máximo.  Contra toda lógica e bom senso, peguei cinco notas de cem e pedi que Chico apostasse em mim, na minha vitória.  Chico se mostrou surpreso, mas foi correndo para o guichê de apostas.
     Soou a sineta.  Primeiro round.  Se algum dia fui um lutador de boxe, esquecera-me de tudo.  Não tinha a menor ideia do que fazer.  Pensei que El Britador fosse logo partir para cima de mim, mas ele se manteve um tanto retraído, como a observar o que eu faria.  Que tipo de aposta ele teria feito? Se apostou que somente me liquidaria lá pelo sexto assalto e lutasse com vistas a esse fim, ele, provavelmente, ficaria enrolando.  E, por certo, ganharia muito mais grana, pois, pelo que Chico me contou, ninguém apostou que eu estaria de pé, após o quinto tempo.
     Não sei se o Gigante estava fazendo isso por erro ou de propósito, mas o fato é que ele lutava comigo como se eu de fato representasse algum perigo para ele.  Nas poucas vezes em que chegava mais perto, errava os socos, ou me tocava os braços de maneira suportável.  Os que haviam apostado na minha queda, ainda no primeiro assalto, desesperavam-se.  Quando deu o sinal de término daquela etapa inicial, algumas vaias esparsas se ouviam.
     No intervalo, água no rosto, novas massagens e alguns conselhos de Gouveia. Conselhos, por sinal, que não faziam qualquer sentido para mim. Eu me esforçava, em vão, para recordar-me de algum momento, vinculado ao boxe. No entanto, tudo de que me lembrava a meu respeito tinha a ver com minha atividade no Grande Mundo Hotel.  Eu me podia ver saindo do trabalho, indo para um quarto e sala muito apertado.  Ficava lendo ou então vendo filmes no computador.  Só imagens assim me vinham à mente.
     Talvez por causa dos apupos, El Gigante Britador começou o segundo confronto movimentando-se bem dinamicamente.  No entanto, mais fingia do que atacava de verdade.  Mesmo não entendendo muito de boxe, eu percebia que ele jogava contra mim com a guarda muito aberta.  Suponho que meu contendor absolutamente não temia levar um soco meu. 
     Houve um instante em que escorreguei e acabei abraçando-me a meu adversário, para não cair.  El Gigante poderia ter-me liquidado ali, mas não o fez.  E o árbitro logo se assanhou, aproveitando para separar-nos, com estardalhaço, rodopiando sua longa capa de morcego. E, óbvio, passou-me uma descompostura.  Nem tentei explicar-lhe o que houve. A essa altura, estava na cara a parcialidade do Togado, embora nem o público nem a Rede Rodo mencionassem qualquer coisa sobre isso, como também nada criticavam a respeito da demora de El Gigante em tentar decidir o combate.
     No terceiro assalto, o Britador desfechou um soco rápido, inesperado e violento em minha direção.  Porém, creio que, mais uma vez, ele errou de propósito.  No entanto, o que meu atacante não contava é que, com o susto provocado pelo movimento dele, eu perdesse o equilíbrio, atravessasse as cordas e fosse cair lá embaixo.  Na queda, devo ter batido com a cabeça em algum lugar, fiquei realmente zonzo.  O árbitro começou a contar, mas de uma maneira tão lenta, que me ocorreu a suspeita de que ele e o Gigante estavam acordados quanto ao momento exato em que eu deveria ser derrubado.  Quem mais faria parte do acordo?  Ao me ver tombar, Fonseca e os dois assistentes começaram a jogar água na minha cara e a massagear-me.  O desespero de Fonseca era evidente.
     - Droga, cara!  Você quer me arruinar?  Tudo que você tem que fazer é ficar em pé e vivo no palco até o sexto assalto.  Entendeu?  Então, o Gigante vem e lhe dá um soco.  Ele vai bater de leve, se você fizer a coisa certa.  Daí basta fingir que desmaiou e pronto.  Ninguém se machuca, e todo mundo sai ganhando.  Se não fizer assim, ele vai jogar pra valer, e aí, pode estar certo, você não sairá vivo.
     Agora, já não era suspeita, tinha certeza: havia algum acordo e, até a sexta rodada, pelo menos, eu poderia ficar tranquilo, que não levaria nenhum golpe fatal.  Voltei então para o ringue, quando o Vivaldino Togado já pronunciava o número nove.  Chegasse a dez, já era.  Mal retornei, soou o congo.  Togado se aproximou de meu ouvido e disse com raiva:
     - Veja se não estraga tudo, idiota!
     No intervalo do terceiro para o quarto tempo, considerei o quanto aquela gente era sórdida.  Até onde iria aquela trama?  Era evidente que a luta, até ali, fora uma farsa.  Porém, os locutores da Rede Rodo elogiavam o desempenho do Britador, como se ele estivesse dando o máximo de si.  A cena em que eu me desequilibrara e caíra fora do tablado era reprisada a todo momento, como se constituísse prova da eficácia do Britador e da honestidade da luta.  E a Rodo cobria de elogios o trabalho torpe de Vivaldino Togado. O engraçado é que, contra toda evidência, o público acreditava nas opiniões e distorcidas informações que lhe despejava a Rodo. 
     Eu estava ainda sentado em meu canto, quando Chico se aproximou:
     - Aqui, o bilhete de sua aposta, Oliveira.  E, quer saber, eu também apostei em você.  Aliás, eu e o Gouveia.  Não é, Gouveia?
     O ruivo confirmou com a cabeça.  Aquilo me comoveu.  Eram dois assistentes leais.  Não faziam parte da trama sórdida. 
     Comecei a pensar:  até onde os mancomunados seriam capazes de manter aquela encenação?  E se eu os forçasse a dar a vitória ao Gigante, antes do sexto tempo, sem ficar esperando por um soco na cara, cujas consequências eram então imprevisíveis? 
     Durante o intervalo, notara que alguns ambulantes desfilavam entre as arquibancadas.  Vendiam diversas bebidas e guloseimas. Assim que o quarto assalto começou, passei pelas cordas, saí do ringue e fui para junto das arquibancadas.  Escolhi um daqueles vendedores, fui até ele, paguei e peguei uma latinha de cerveja bem gelada.  Pedi-lhe que a abrisse.
     Fiquei então, tranquilamente, fora do ringue, bebendo.  O público, perplexo, começou a vaiar.  Eu não estava nem aí.  Os que tinham apostado que eu cairia no quarto assalto exigiam que o árbitro, apalermado no centro do ringue, iniciasse a contagem.
     O homem arrastou a capa vampiresca para lá e para cá, enrolou o quanto pôde, mas começou a contar.  Na verdade, o árbitro deveria desclassificar-me.  Porém, não o fez, e as câmeras mostravam o homem contando, mas não mostravam a mim, bebendo a cerveja.  Embora eu não tivesse recebido golpe algum, a Rodo começou a falar de uma pancada inexistente que me teria lançado fora do ringue.  Entraram então com uma cena em que o Britador dava um soco num lutador, e o atingido caía fora das cordas.  Só que aquele sujeito não era eu.  Tratava-se de uma cena qualquer, já esquecida, de outra luta.  A montagem era grosseira, o tablado nem se assemelhava ao da luta atual.  E, no entanto, todos, mesmo os que estavam presentes na plateia, pareciam acreditar mais no que se dizia e passava na tela do que no que testemunhavam ao vivo. 
     De repente, senti a mão de alguém no meu ombro. Era o Fonseca.
     - O que está querendo fazer?  Volte para lá agora, senão farei um sinal e os seguranças vão pegá-lo e jogá-lo dentro do tablado.  E acredite, eles não serão gentis.
     Não quis arriscar.  O homem parecia mesmo muito irritado e disposto a tudo. Retornei ao ringue, quando a contagem arrastada do Togado já chegara, mais uma vez, a nove. Logo soou o gongo novamente.  Fim do quarto assalto.
     No quinto round, resolvi não tentar mais nada.  O melhor, afinal, era aceitar o jogo deles e ter uma chance de sair com vida. Não havia escolha mais propícia.  Então, o Britador, com a ajuda do Togado e da Rodo, ficou enrolando, sob o olhar complacente do público.  E assim deu-se o sinal para o fim do quinto assalto.
     Logo que me sentei no banquinho, Chico se aproximou, dizendo-me que sabia do que eu precisava.  Em seguida, abriu uma valise, de onde tirou um bonito defumador metálico, que tinha uma corrente prateada.  Ele o acendeu, e, do brilhante objeto, começou a sair uma fumaça colorida, de perfume agradável e inebriante. Segurando o incensório pela corrente, Chico o balançava de um lado para outro, bem perto do meu rosto, enquanto entoava uma espécie de reza. De repente, comecei a sentir-me completamente relaxado, nas nuvens mesmo.  E lá, nas nuvens, encontrei-me com Sócrates, que me aguardava, usando uma túnica clara, com um tecido colorido jogado nos ombros.
     - Sócrates, você nas nuvens?  Pensei que depois da sátira injusta, feita por Aristófanes, você nem mais quisesse olhar para o céu.  Quanto mais, habitar uma nuvem.
     - Aristófanes e também aqueles que depois me condenariam à morte eram uns tolos.  Seja como for, depois que vim para este lado, descobri que surfar pelas nuvens é um esporte interessante.
     - Por Zeus! De que será feito esse incenso que Chico está usando?  Certamente, isso tudo que está acontecendo não passa de pura ilusão.
     - E o que não é pura ilusão nesse mundo passageiro em que você vive, meu rapaz?  Na verdade, você está tendo um sonho semilúcido.  Provavelmente acordará, depois do desfecho total.
     - Não antes?
    - Não antes.  Você adormeceu enquanto lia a minha biografia; aquela, editada pela Salvat.  Acha-se em sono profundo, não há como despertar agora.
     - Mas isso não é sonho, Sócrates.  É um pesadelo.  No próximo round esse tal de Britador vai acabar comigo. E se o que acontecer aqui refletir-se na minha outra vida, em que sou Juvenal Nunes?
     - Por isso vim para cá.  Para que isso não aconteça.  Veja quem trouxe comigo.  Ele o ajudará.
     Só então percebi que havia um homem negro, alto, forte, mas quase transparente, ao lado de Sócrates.  A imagem dele era tão rarefeita, que às vezes ele desaparecia entre as flutuações da nuvem.  Logo o reconheci.  Aquele era o pugilista cuja foto estava no vestiário, e que fora apontada por Fonseca.  Tratava-se de Black Jones, o adversário anterior do Britador, que entrara em coma após a luta com o Gigante.
     - Você morreu Black Jones? - Perguntei.
     - Ainda não.  Mas minha alma vagueia por aí, enquanto meu corpo está naquela cama de hospital. Deixe-me conduzir seus braços.  Agora sei como derrubar esse Gigante.
     - Faça o que quiser com meus punhos, Black Jones.
     Nisso, soou a campainha para o sexto e decisivo assalto. Senti um arrepio e percebi que ficara um tanto fora de meu próprio corpo, embora pudesse acompanhar com lucidez tudo que acontecia.  Dentro de mim, Black Jones caminhou com firmeza para o centro do tablado.  Encarou, sem qualquer receio, o Britador. E, embora o corpo usado por Jones fosse o meu, de algum modo o Britador reconheceu nele aquele que fora seu maior e melhor adversário.  Então, o Gigante tremeu:
     - Você?  Mas não é possível, você está no hospi...
     El Britador não chegou a concluir a frase.  O primeiro soco que tomou foi um direto na cara, desferido com uma força titânica. O segundo, um cruzado no queixo.  O terceiro e o quarto, foram dois socos simultâneos e frontais que atingiram o Britador no peito, logo abaixo do pescoço, e na cabeça.  Os olhos do Gigante reviraram e ele caiu ao chão com um pesado estrondo.
     Na plateia atônita, um silêncio absoluto.  Apenas Gouveia e Chico comemoravam, junto às cordas.  Os locutores da tevê também haviam emudecido.  Fonseca, arrasado, levou as duas mãos à cabeça. 
     Todos, naquele momento de suspense, esperavam que o árbitro iniciasse a contagem.  Mas ele não a iniciava.  Pressionado por mim e pelos meus dois auxiliares, Togado, por fim, começou a contar, bem devagar, na expectativa de que o gongo soasse, salvando o Gigante da derrota humilhante.  Mas não adiantou, ele chegou a nove, e, quando todos esperavam que Vivaldino contasse o dez, súbito, o árbitro deu um pulo:
     - Golpe baixo! Golpe baixo! - Gritava Vivaldino Togado, fazendo e desfazendo um xis com os braços, num ritmo alucinante, sacudindo a capa de morcego e indicando o encerramento da luta.
     Os locutores da tevê despertaram então de seu torpor e se puseram a repetir também, freneticamente, o veredito do árbitro:  Golpe baixo! Golpe baixo!  
     Percebendo a jogada de Togado, logo a Rodo escalou um comentarista esportivo, apresentado como uma sumidade em boxe, que explicava, didaticamente, aos telespectadores as regras daquele esporte, enfatizando que o golpe final, que abatera o Britador, fora abaixo da cintura.  Vejam no replay, dizia o especialista, e entrava um vídeo em que a filmagem da cena se dava pelas minhas costas, de forma que não era possível ver exatamente onde eu acertara o Britador.  Eu sabia que fora no peito, junto ao pescoço, e na cabeça; o árbitro vira muito bem, assim como, mais da metade da assistência.  No entanto, com uma velocidade impressionante, em segundos correu o rumor pela plateia e pelas redes sociais de que houvera golpe baixo.
     Pouco depois, a Rodo providenciaria, às pressas, uma edição na qual se cortava o momento da contagem.  Aparecia a cena da queda do Gigante e, logo após, surgia Vivaldino Togado, fazendo o gesto de encerramento com as mãos e gritando: Golpe baixo! Golpe baixo! - De tal maneira era convincente, que até mesmo quem testemunhara de perto a ocorrência já não tinha tanta certeza quanto ao que acontecera.
     Embora mal podendo ficar de pé, El Gigante Britador conseguira recuperar a consciência e erguer-se parcialmente.  O árbitro puxou-nos para o centro do ringue, segurou o meu braço esquerdo, que manteve abaixado, e suspendeu vitoriosamente o braço direito do Britador, acintosamente comemorando com ele.
     Eu, os meus dois amigos e um pequeno grupo de estudantes tentamos ainda protestar contra o resultado, mas os soldados de preto, sem serem filmados, atiraram em nós com balas de borracha e gás lacrimogênio. 
     Enquanto o rádio e a televisão mostravam o triunfo de El Gigante Britador e a euforia da plateia, fomos presos e arrastados para longe dali.
     Só então, com um sobressalto, despertei.
 
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Ricardo Alfaya – Esta é a terceira e mais aprimorada versão deste conto.  A primeira, escrita na época da ditadura militar, era bem mais curta e fora selecionada para premiação num concurso promovido pelo Diretório Estudantil das Faculdades Integradas Hélio Alonso, onde estudei. Por motivos ligados à censura e à política da época, o concurso nunca foi concluído, de forma que não sei qual exatamente seria a minha premiação.  Depois, fiz uma segunda versão que esteve por um bom tempo no site literário de uma editora do Estado de São Paulo.  No entanto, com as reformulações e atualizações do site, o conto deixou de ser exibido por lá.  Os originais, tanto da primeira versão quanto da segunda, achavam-se num disquete, que acabou também se estragando. Porém, nunca me esqueci nem do título, nem dos dados básicos da história. Assim, foi possível fazer a presente versão, em que incorporo alguns elementos inspirados em acontecimentos recentes.  Rio de Janeiro, 04 de dezembro de 2017.
Ricardo Alfaya
Enviado por Ricardo Alfaya em 04/12/2017
Alterado em 05/12/2017
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