ALFAYA LIVREIRO
Poesias, contos, crônicas, ensaios, resenhas. Venda de livros.
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CÍCERO, FILÓSOFO ROMANO
 
 
            Estava no supermercado da esquina da Cândido Mendes com a Rua da Glória, tentando decidir-me quanto ao sabor da pasta de soja que compraria.  Levava a de grão-de-bico ou seria melhor cenoura e cebolinha? Talvez a de berinjela...  Nisso ouço uma voz bonita e moderadamente aflita a clamar por Cícero. O site de busca da minha mente logo vasculhou os arquivos e trouxe-me, quase de imediato, o busto do antigo filósofo romano, que vira talvez numa capa da coleção “Os Pensadores” (eu a tenho completa) ou em alguma página da internet.  Ao mesmo tempo, por conta própria, uma parte inconsciente qualquer do meu cérebro acionou os mecanismos do meu pescoço, fazendo com que ele conduzisse meus olhos para o lado direito. 
            Foi quando me deparei com um pequerrucho que especulava filosoficamente o conteúdo do cesto de um homem que, distraído, nem notara a presença do guri, enquanto pedia à atendente um pedaço de alcatra.
            A mãe, exageradamente aflita, como somente as mães sabem ser, aproximou-se do pequeno infrator, dizendo que não fizesse aquilo.  Tomou as mãos do menino e afastou-o do local, pedindo desculpas ao senhor, que me pareceu nem ter notado o que aconteceu.  A moça fez tudo isso com a delicadeza que seus provavelmente cansados nervos ainda lhe permitiam.
            Mas o engraçado era a cara do guri.  Se a fisionomia não fosse um tanto larga, lembraria a de Jesus.  Porém, sua cabeça recordava mais a de um romano antigo e as franjas do cabelo louro, um tanto escuro, encaixaram-se muito bem com a imagem que meu Google interior projetara.  E, apesar de aquele menino não ter mais que uns cinco anos, se tanto, eu vira nele, naqueles instantes, o retrato do antigo sábio.
            Naturalmente, nada comentei então.  Caminhei para outra seção, à esquerda, e, ao passar pela jovem senhora, não pude evitar observá-la.  Ela, certamente, não ganharia nenhum papel principal numa novela das nove.  Porém, era uma apreciável morena, de corpo bem proporcionado, cabelos longos e com belas pernas (usava uma discreta bermuda).  O rosto não vi direito, porque toda essa avaliação foi feita covardemente pelas costas da moça, enquanto eu fingia interesse nas prateleiras de inseticidas.
            Por fim, dei por encerrado o assunto. Passei pelos sucos, peguei um de uva, Vô Luiz (ótimo para dores nas pernas), duas garrafas de Minalba (a que tem o melhor índice de pH, das minerais vendidas no Rio) e fui a uma caixa que estava sem fila.  Pouco depois de eu ter distribuído os produtos no balcão, eis que se materializa, ao lado das minhas mercadorias, o intrépido Cícero.  Sem camisa, exibia um tronco reto, rosto largo e um tanto quadrado, uma franja quase em mechas sobre a testa alta.  Assim, visto em close, lembrou-me ainda mais o antigo pensador.
            A mãe, que tinha ido pegar qualquer coisa, voltou de repente.  Em geral, não aprovo esse péssimo hábito dos brasileiros de pôr crianças em pé sobre os carrinhos ou sobre os balcões dos supermercados.  As crianças podem ser lindas, limpas e saudáveis.  Porém, puseram as solas dos seus delicados sapatinhos nas contaminadas calçadas das ruas, estão, pois, esses objetos cheios de micróbios, não sendo nada saudável que seus pés sejam postos sobre carrinhos e balcões de lojas em que se vendam mantimentos.  Se nunca reclamei nem reclamarei disso, por outro lado, também não fico de risinhos e agrados com os pais que procedam desse modo.
            No entanto, tudo tem sua exceção na vida.  E Cícero me pareceu especial.  Além disso, no Rio, pelo menos, Cícero não é um nome comum.  Fazia tempo que não ouvia alguém ser chamado assim. E a mãe, em seu retorno, agora mais calma, dirigiu-se com ternura ao menino, dizendo-lhe alguma coisa que terminava com o seu nome.  A mocinha da caixa nitidamente simpatizara com o guri.  Ela abriu um sorriso para ele, o que tornou mais suportável a visão do piercing prateado que a jovem desnecessariamente anexara à narina esquerda, prejudicando o encanto de seu rosto.
            E foi então que, rompendo de vez todos os meus diques e reservas, quase sem ter consciência do que estava fazendo, comentei, apontando para o menino e dirigindo-me à mãe dele:
            - Engraçado, que se parece mesmo com o Cícero.
            A moça, surpresa, olhou-me um tanto confusa.  E só nesse momento vi o quanto era bonita, o que me perturbou um pouco.  Para piorar, ela demonstrou não ter compreendido a comparação. Indagou, de maneira amistosa:
            - Como assim? Acha que ele se parece com o Padre Cícero?
            Falou isso com voz clara, um tanto alta.  Nesse ponto, atrás dela formara-se já uma fila e, no caixa ao lado, que fica muito próximo, também surgira outra.  Quando ergui a cabeça para esclarecer, já completamente arrependido de ter aberto a boca, notei que várias pessoas me fixavam atentas.  Cícero, aparentemente alheio a tudo, divertia-se com um brinquedo qualquer.  Nada podia fazer para socorrer-me.
            - Não - esclareci apressado -, eu me referia ao filósofo romano. É que existe um busto dele... Eu pensei que você tivesse posto esse nome em homenagem ao filósofo.
           - Não, eu não sabia.  Obrigada por contar-me a origem...
            Ela me fitava, decididamente fascinada.  A fisionomia se iluminara, tudo nela parecia ter-se apoderado subitamente da beleza.  E fora tão rápido e intenso, que, perante a cena, senti-me completamente transtornado.  E para me arrasar de vez, ela lançou um olhar ao menino.  Era como se ela o estivesse vendo pela primeira vez, como se um segredo se houvesse revelado.  Poucas vezes vira antes um olhar que expressasse tão extrema bondade e tão profundo amor.
            E me lembrei da maneira lasciva com que, furtivamente, eu a avaliara antes, e a verdade é que me senti completamente envergonhado.  Eu ali, diante de uma das mais belas e extraordinárias experiências amorosas que a vida me proporcionara testemunhar.  Não haveria tela, cinema, escultura, poema.  Absolutamente nada eu poderia fazer para transmitir o fenômeno que acontecia no balcão daquele supermercado.  Nada, absolutamente nada.
            Quando pensei que tudo já estivesse acabado e que poderia escapar dali (mais do que tudo eu queria fugir daquela superexposição pública), a mãe de Cícero pondera:
              - Mas, nesse busto, a imagem do filósofo deve ser a de um homem bem mais velho.
          - Sim, tem razão.  Mas aí a gente faz a projeção no tempo...
           Disse isso erguendo o braço esquerdo, ainda livre de sacolas, fazendo movimentos que, para mim, simbolizavam quadros projetados no tempo-espaço, como quem exibisse os fotogramas de um filme imaginário.  Para meu alívio, a explicação pareceu satisfazê-la.  E antes que a expressão de contentamento lhe fugisse do rosto, despedi-me com os sinceros votos de uma boa tarde, os quais ela e a mocinha da caixa efusivamente retribuíram.
Ricardo Alfaya
Enviado por Ricardo Alfaya em 08/01/2017
Alterado em 12/11/2017
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